É preciso deixar o novo chegar, desapegue

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Por Jackeline de Lara*

Quando falamos, ou pensamos no que querem dizer com a frase tão comum hoje em dia, “deixe o novo chegar, desapegue”, ficamos nos interrogando sobre como isso se realiza na prática. A necessidade do desapego é reconhecida,  mas às vezes nos parece algo muito difícil.

Somos apegados à tudo que nos agrada, é como um vício, nos viciamos no que sonhamos para nós, e isso se inicia em nossos pensamentos, sentimentos, e exteriorizamos em nossas palavras e atitudes, pois passamos a viver na maioria das vezes, em um mundo de ilusões, um mundo que criamos, e em prol dele somos capazes de tudo, inclusive muitas vezes de coisas das quais um dia nos envergonharemos.

Com certeza alguns que estão lendo esse artigo, estão pensando, o óbvio, “será que esse povo não tem fé em Deus? A saída é Cristo”! Esses mesmo leitores são outros viciados, presos às suas convicções, querendo ser algo e na prática sendo outra coisa.

Sofremos por coisas tão pequenas, e temos consciência disso. Sou, ou me vejo não sei ao certo, uma pessoa que sente tudo tão profundamente, que as vezes me assusto, e assusto quem comigo convive. Em alguns momentos já cheguei a brigar com Deus, talvez na esperança de receber todas as respostas sem deixar a vida se encarregar de trazer tudo no tempo certo, se é que existe esse tempo. Eu me apego muito rapidamente às pessoas, situações, é um sentimento que tira minha paz, tenho dificuldades em aceitar em meu íntimo que uma amizade não dá mais por exemplo, mesmo que o outro tenha me prejudicado, provado a falta de comprometimento com essa relação, é tão doloroso para mim, que me pego inventando desculpas para as atitudes do ser.

E assim somos nós, alguns se viciam no trabalho, na troca de carro do ano, em comprar coisas, ou nas relações, alimentos, entorpecentes, porque na verdade o apego domina o ser humano, o apego nos destrói, diminui, tira o foco de tudo de bom que poderíamos estar comprometidos.

Homens e mulheres se submetem a relacionamentos abusivos amorosos, relações de amizades e profissionais abusivas, por causa desse sentimento doentio de apegar-se, e passamos nossos dias, nossas vidas, sem qualidade verdadeira. Tão comum nos depararmos com pessoas que sofrem de doenças psíquicas, dores fortes e constantes de cabeça, depressão, síndrome do pânico, ansiedades, temperamento explosivo, e até outras doenças do corpo e da alma,  que judiam, amedrontam, e parece não terem cura, tirando a paz, alegria e até ocasionando uma série de doenças físicas em quem as tem,  levando até a morte, não esquecendo que o suicídio tem tido papel de destaque entre esses óbitos.

São sentimentos tóxicos que estamos habituados a conviver, pensamentos destrutivos que nos acostumamos a ter sobre nós e os outros, em algum momento, em alguma situação isso foi introduzido no ser humano, que repassa às suas gerações, e embora tenham surgido tratamentos diversos, quem se submete à eles, parece apenas ter encontrado algo a mais para se viciar, pois sem eles, retornam ao que eram, e em tratamento percebemos mudanças sim, porém uma bipolaridade junto, um dia veste a capa do que deveria ser a postura de alguém que recebeu a cura, e no outro está sendo quem sempre foi, faço essa afirmação sem qualquer fundo de crítica, é apenas uma observação, que deixa claro que a cura ainda não foi encontrada.

Talvez seja necessário buscarmos uma forma de nos reprogramarmos, temos sido presos, por correntes que nós mesmos criamos junto ao nosso meio, e para elas não há cadeados, porque foram construídas com nossos pensamentos dominados por nossos sentimentos, e somente nossos sentimentos poderiam quebrá-las. Desconfio que um mudar de pensamentos, seja o início, não apenas sobre nós, mas em como construímos nosso pensar em relação à nós e ao outro, não alimentando de forma negativa nossa essência já formatada tão negativamente.

O mundo é pesado, nosso caminho é uma estrada cheia de coisas boas, mas também dores, principalmente quando não somos capazes de nos focar apenas em nossas complexidades, mas também na dor do outro, estamos doentes, e não sabemos ao certo nem mesmo que doença é, a humanidade está perecendo desde que foi criada, não há um ser sequer completamente saudável emocionalmente, apenas os que fingem melhor. O tempo e as experiências têm provado que não somos capazes de administrar nada, nem mesmo nosso eu, o criador é fonte de cura e vida, mas nem chegar até ele sabemos, pelo contrário estaríamos curados, ou teríamos exemplos de ao menos uma pessoa curada nessa terra, e não temos.

Somos atraídos pelo que nos causa mal o tempo todo, o bem nos parece enjoativo, tanto que estamos sempre caindo, e nos mesmos erros, e chorando pelas conseqüências, e quando olhamos à nossa volta observamos o mesmo com o outro, sem me atrever a falar de verdadeiros bandidos, o texto propositalmente discorre sobre pessoas tidas como de boa índole, essas que buscam a todo tempo serem politicamente corretas, homens e mulheres que com sinceridade querem um mundo melhor para todos.

Às vezes parece que Deus nos soltou aqui para nos mostrar o que realmente somos, nossas fragilidades, egocentrismos, inconsistências, superficialidades, contradições, covardias, e quanto mais penso, mais acredito que precisamos nos curvar à certeza da soberania de Deus, não somos nada, não há possibilidade alguma de sermos algo, quem nos criou é a essência de tudo, sem ele nada subsiste, e é necessário encontrarmos neste labirinto, uma maneira de termos essa essência viva em nós, para colocarmos esse plano inicial da nossa origem em ação, e assim, esse vazio ser preenchido.

Não acredito que alguém fora Jesus tenha encontrado, pelo contrário, esses, estariam morrendo por aí, perdendo empregos, bens materiais, por estarem denunciando as atrocidades que ocorrem no dia a dia, em especial à nossas crianças. Ir nos templos cantar, ler a palavra da vida, fazer caridades, é importantíssimo, mas não é suficiente, falo de ser movido ao ponto, de entrar em situações que ninguém ousa entrar, coisas que sabemos que nos seria tirado a nossa própria vida, e quando falo da coragem que só o espírito de Deus é capaz de nos dar, é sobre essa coragem, e essa ninguém tem, é necessário o desapego de tudo o que nos barra a agir com justiça de forma imparcial sempre, e em qualquer situação, a cura verdadeira, e deixar o novo chegar, o novo ser que deveríamos ser e não conseguimos ainda.

* Jackeline de Lara, graduada em Pedagogia, especialista em Educação Especial e em  Educacão Infantil e Séries Iniciais, proprietária do Espaço Kids. Casada e mãe de duas lindas meninas.

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