Mato Grosso do Sul pode estar no foco de novos capítulos do escândalo financeiro envolvendo transações suspeitas entre o Banco Master, de Daniel Vorcaro, e o BRB (Banco de Brasília). A Polícia Federal deflagrou mais uma fase da Operação Compliance Zero nesta quinta-feira (16) e prendeu Paulo Henrique Costa, ex-presidente do banco.
O empresário Rodrigo Kalinovski, da RKO Alimentos Ltda., que possui negócios em Mato Grosso do Sul, acusa o BRB (Banco de Brasília) de cobrar R$ 600 milhões de uma CCB (Cédula de Crédito Bancário) referente a um empréstimo tomado pela empresa junto ao Banco Master.
A RKO é dona de um frigorífico sediado no antigo laticínio da Vila Jacy e de uma planta frigorífica em Coxim. Além disso, possui uma fábrica de sabão, Pequi, na Capital.
Agora, a RKO tenta provar na Justiça que já quitou empréstimo de R$ 407.664.083,93, tomado com o Master em dezembro de 2023. A empresa entrou com ação em 20 de março alegando que a dívida já quitada foi vendida para o BRB como um “ativo podre”.
O empréstimo foi feito por intermédio da Reag — que foi parceira em diversos negócios de Kalinovski. Aliás, o empréstimo é tido como suspeito pela Polícia Federal. O empresário já acionou advogados e enviou documentação para a investigação.
Tanto o Master quanto a Reag foram liquidados pelo Banco Central após escândalo de fraude financeira comandada por Daniel Vorcaro vir à tona.
Documentos apresentados pela RKO à reportagem mostram uma notificação de quitação da dívida assinado por um dos sócios do Master, Ângelo Antônio Ribeiro da Silva — preso pela PF com Vorcaro.
Ao Jornal Midiamax, Kalinovski explicou que buscava ampliar seus negócios. A RKO tem sede em Barueri, na Grande São Paulo, mas possui um frigorífico em Coxim, outro em Campo Grande e, também, uma fábrica de sabão na capital sul-mato-grossense.
Para adquirir novas plantas frigoríficas, o empresário tomou o empréstimo. A operação foi estruturada de forma a contar com garantia fiduciária lastreada em cotas de fundo de investimento Titânia, administrado pela Reag.
No entanto, o empresário alegou que enfrentou empecilhos para conseguir aprovação do conselho do fundo para comprar plantas frigoríficas. “Sempre apontavam algum problema e não aprovavam a compra”, disse.
Assim, no dia 30 de junho de 2025 — um ano e seis meses depois —, a RKO encaminhou documento ao Banco Master com sua manifestação de vontade de quitar antecipadamente o referido débito, por meio da transferência das cotas necessárias à operação de dação em pagamento.
O BRB (Banco de Brasília) comprou carteiras de crédito do Banco Master com indícios de irregularidades, incluindo dívidas já quitadas ou inexistentes. A operação envolveu cerca de R$ 30,4 bilhões em ativos desde julho de 2024, com relatos de clientes cujos débitos foram indevidamente registrados no Banco Central (Registrato).
Nesta quinta-feira (16), o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa foi preso durante a quarta fase da Operação Compliance Zero. Ele já havia sido afastado do cargo no início das investigações, sob suspeitas que envolvem as relações entre a estatal e o Banco Master.
As investigações envolvem a aquisição de ativos do Master pelo BRB sem valor real, que passaram a ser chamados de “ativos podres”. O que se busca entender é se os dirigentes da estatal sabiam que o banco tentava mascarar uma crise de liquidez, beneficiando a empresa mesmo assim. O prejuízo pelo envolvimento com a companhia de Vorcaro é estimado em R$ 8 bilhões.
A negociação de ativos se soma à ideia de compra do próprio Master, também sob suspeita.
RKO aciona BRB na Justiça
Frigorífico da RKO, na Vila Jacy, em Campo Grande. (Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)
Diante das cobranças feitas pelo BRB, a RKO afirmou que entrou na Justiça, em 20 de março deste ano, para que o banco apresentasse os documentos que embasariam a alegada cessão e, especialmente, as diligências que teriam sido realizadas para verificar a regularidade do crédito.
Kalinovski diz que tem tido prejuízos com essa cobrança, já que sua empresa foi acionada no SisBacen, dificultando a obtenção de crédito junto a outras instituições.
O empresário diz, ainda, que o BRB ameaçou vender esses créditos — que já estariam quitados — a terceiros.
Empreiteiros e produtores rurais de MS estão entre supostos ‘laranjas’ no Banco Master
A lista de empresas que tomaram empréstimos ou realizaram transações suspeitas com a Reag só aumenta desde que o escândalo estourou, no fim de 2025. Agora, todas estão no radar da Polícia Federal. Entre elas, empreiteiras, produtores rurais e empresas do ramo de alimentos com negócios em Mato Grosso do Sul.
A reportagem do Jornal Midiamax teve acesso a alguns desses nomes e conseguiu falar com parte deles. Embora ninguém aceite aparecer, o clima entre todos é de apreensão, enquanto as investigações se desenrolam e o acordo de delação de Daniel Vorcaro avança.