Alemão e Penha são alvos de megaoperação para conter avanço do CV; ação tem quatro mortos e cinco baleados, entre eles um PM e um delegado
28 de outubro de 2025Objetivo é conter expansão territorial de facção e capturar chefes do tráfico do Rio e de outros estados
Uma megaoperação das polícias Civil e Militar nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio, já deixou quatro mortos e ao menos cinco feridos — entre eles um cabo do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e um delegado da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) — até o meio da manhã desta terça-feira. O objetivo é cumprir mandados de prisão contra integrantes do Comando Vermelho (CV), 30 deles de fora do Rio, escondidos nos dois conjuntos de favelas, identificados pela investigação como bases do projeto de expansão territorial do CV. Até agora, 23 pessoas foram presas e dez fuzis foram apreendidos na ação, que mobiliza 2,5 mil policiais e também promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MPRJ).
Entre os mortos, dois são suspeitos vindos da Bahia, afirmam as autoridades de segurança. Entre os feridos, além dos policiais, há um morador em situação de rua, um homem e uma mulher que estava numa academia. Já entre os presos está o operador financeiro de Edgard Alves de Andrade, o Doca, apontado como um dos principais chefes da cúpula do CV na Penha.
Moradores dos conjuntos de favelas, formados por 26 comunidades, usam as redes sociais para relatar intensos tiroteios. Fogo foi ateado em barricadas e foi possível ver colunas de fumaça à distância. Policiais foram atacados por granadas lançadas por drones, afirmou o secretário de Segurança Pública, Victor dos Santos, em entrevista ao BDRJ. O telejornal mostrou ainda criminosos fugindo por uma área de mata. Há desvios em linhas de ônibus e unidades de saúde e educação com funcionamento suspenso.
O policial do Bope baleado foi atingido durante um confronto numa região de mata conhecida como Vacaria. Segundo a PM, ele foi ferido de raspão e levado para o Hospital Central da corporação.
A ação visa a capturar chefes do tráfico do Rio e de outros estados e combater a expansão territorial do Comando Vermelho nos complexos. A operação acontece após de mais de um ano de investigação. A Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) obteve mandados de busca e apreensão e de prisão, que são cumpridos.
Participam da Operação Contenção policiais militares do Comando de Operações Especiais (COE) e das unidades operacionais da PM da capital e da Região Metropolitana. A Polícia Civil mobilizou agentes de todas as delegacias especializadas, das distritais, da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), do Departamento de Combate à Lavagem de Dinheiro e da Subsecretaria de Inteligência.
Além de aparato tecnológico, como drones, a Operação Contenção conta com dois helicópteros, 32 blindados terrestres e 12 veículos de demolição do Núcleo de Apoio às Operações Especiais da PM, além de ambulâncias do Grupamento de Salvamento e Resgate.
Participa também da operação o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MPRJ), que afirma estarem sendo cumpridos 51 mandados de prisão contra traficantes que atuam no Complexo da Penha. De acordo com o Gaeco, por estar perto de algumas das principais vias expressas do Rio e ser ponto estratégico para o escoamento de drogas e armamentos, o Complexo da Penha se tornou uma das principais bases do projeto expansionista do CV, especialmente em comunidades da região de Jacarepaguá, na Zona Sudoeste carioca. A ação desta terça-feira, destaca o MP, ocorre na sequência de outra operação, no último dia 29 de setembro, contra traficantes da facção que controlam a Gardênia Azul e outras localidades da Zona Sudoeste.
Segundo o MP, Doca é a principal liderança do CV no Complexo da Penha e em comunidades como Gardênia Azul e César Maia, na Zona Sudoeste, e Juramento, na Zona Norte, algumas delas recentemente tomadas da milícia. Segundo a denúncia, também exercem liderança no CV Pedro Paulo Guedes, conhecido como Pedro Bala; Carlos Costa Neves, o Gadernal; e Washington Cesar Braga da Silva, o Grandão. “Eles emitem ordens sobre a comercialização de drogas, determinam as escalas dos criminosos nas ‘bocas de fumo’ e nos pontos de monitoramento, e ordenam execuções de indivíduos que contrariem seus interesses”, afirma o Gaeco em nota.
Impactos
Por causa da operação, 45 unidades de educação municipais fecharam as portas. Vinte e oito delas ficam no Alemão e outras 17, no Complexo da Penha.
Cinco unidades de Atenção Primária que atendem a região da Penha e do Complexo do Alemão suspenderam o início do funcionamento, informou a Secretaria municipal de Saúde. De acordo com a pasta, elas avaliam a possibilidade de abertura nas próximas horas. Uma clínica da família mantém o atendimento à população, mas suspendeu as atividades externas, como as visitas domiciliares.
De acordo com o Rio Ônibus, 12 linhas de ônibus estão com seus itinerários desviados preventivamente para a segurança de rodoviários e passageiros na Penha e no Complexo do Alemão.
Desvios na Penha
- 721 Vila Cruzeiro x Cascadura
- 312 Olaria x Candelária
- 313 Penha x Praça Tiradentes
- 621 Penha x Saens Peña
- 622 Penha x Saens Peña
- 623 Penha x Saens Peña
- 625 Olaria x Saens Peña
- 628 Penha x Nova América
- 679 Grotão x Méier
Desvios no Complexo do Alemão
- 292 Engenho da Rainha x Castelo
- 311 Engenheiro Leal x Candelária
- 711 Rocha Miranda x Rio Comprido
Forasteiros nas comunidades do Rio
Há duas semanas, os jornais O GLOBO e Extra mostram como o Comando Vermelho intensifica sua presença em outros estados do país, numa estratégia de nacionalização frente ao Primeiro Comando da Capital (PCC), com elos dentro de presídios federais. Com esse objetivo, o grupo carioca incorpora ou se alia a facções locais, ao mesmo tempo em que abriga, nas comunidades do Rio, traficantes vindos de fora. Em áreas sob domínio da facção no Rio, órgãos de segurança pública fluminenses já identificam a presença de criminosos de 12 estados, como Ceará, Bahia, Rondônia e Minas Gerais. Por outro lado, o CV se espalha por 25 estados e o Distrito Federal.
A migração de bandidos para o Rio é um sistema de “ganha-ganha”: os criminosos de fora que chegam a comunidades como a da Rocinha e as do Complexo do Alemão conquistam proteção, status e novos conhecimentos na cidade; já o CV amplia franquias Brasil afora, incluindo poderio sobre rotas de escoamento de armas e drogas.
— Hoje está muito comum falar de trabalho híbrido ou remoto. O crime faz o mesmo. Eles entenderam que o chefe não precisa mais estar no estado de origem. Ele pode ficar protegido no Rio e tomar as decisões por videochamadas. Isso é muito vantajoso para todos eles. O chefe do tráfico fica num local de difícil acesso para a polícia, e a organização protege seus principais ativos, diminuindo a rotatividade e gerando estabilidade nos negócios, principalmente em estados que fazem fronteira com outros países — disse, dois domingos atrás, o promotor de Justiça Anderson Batista de Oliveira, coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Rondônia, um dos estados que têm chefes do tráfico presentes no Rio.
A segunda maior facção do Rio, o Terceiro Comando Puro (TCP), também já adota a expansão pelo Brasil, revela a série Conexões do Crime, do EXTRA. Levantamento do jornal mostrou que a guerra entre CV e TCP, inclusive, já se replica em pelo menos cinco estados (Espírito Santo, Minas Gerais, Ceará, Bahia e Acre). As facções cariocas vêm disseminando também táticas de ocupação e exploração de territórios, como cobrança de taxas ilegais e venda de sinal clandestino de internet, além de uso de fuzis e montagem de barricadas.
Na Bahia, a Secretaria de Segurança Pública do estado afirmou a atuação de organizações fluminenses é investigada e que as apreensões de fuzis aumentaram quase 300%, de 2022 a 2024, quando foram recuperadas 22 e 86 unidades, respectivamente. Somente este ano, 114 foram apreendidos, diz a pasta.
Fonte: O GLOBO

